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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Expectativas para o futuro

quando nasci, me disse um anjo cansado
não tão torto, a cara era um tacho:
"Vai Nota Fiscal Paulista?"

sábado, 8 de dezembro de 2012

Bela, inacessível



não lembro de nada de seu corpo
exceto por suas pernas finas de desenhista
por meus devaneios ou minha cara de basbaque
teus dedos ágeis trigonométricos
traçando assuntos no ar acompanhados
do menear veloz de cabeça, da boca em ricto.
no silêncio, ambas as mãos pousadas na bolsa sobre o colo.
a última lembrança:
uma foto na rua dos ingleses, sem número.

senda

pode a vida não ter sentido?
pode e não pode
de minha parte
ouso a busca, e há motivos e razão:
procuro fins e Substância
não tanto importando
se no princípio era o Verbo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A escrita


Encontraram-me morto ao pé da escada.
Mudo e sem direitos, com os pés tortos e as mãos de unhas curtidas nos bolsos.
O odre de quimeras ao lado, quase cheio; não houve tempo de bebê-lo.
No peito ainda jorravam angústias brancas,
Sangue sem cor, talvez o ícor divino,
Já que se eu não tinha deus,
Só podia ser eu mesmo o meu Deus.
Um deus morto e ridículo, como todos os deuses.
Morto ao pé da escada.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Estrela matutina

Ah, estrela matutina!
És alva, bela, peregrina.
Antes do ocaso tu já surges
Mas em sua teimosia
Não perfazes constelação.




[O último verso é tão deslocado musicalmente como é a estrela matutina e como são todos os introspectivos, que ousam brilhar apenas para si e na luz do dia, um brilho que parece opaco e fugidio para todos aqueles que não sabem olhar.]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Opinião

Defeitos, defeitos, o mundo vai cheio.
Os meus, os tenho! Quem não tem!
Mas a verdade é que nunca erro.
In dubio pro ego.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Epitáfio-epítome

O sorriso tímido de Carlos,
Os óculos de Hermann,
O timbre numa carta de Ariosto,
O cigarro do Zé Paulo.

Cada qual com seu pertence.

Só tenho a canalhice deste sorriso franco.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

domingo, 24 de julho de 2011

Necessidade

Pobre homem, tu te enganas
quando pensas que olham para ti.
Tu te equivocas ao pensar que há surpresas,
passagens secretas feitas em rochas sem memória.

E então tu procuras.
Cavuca a terra, olha sob um seixo,
entra em tua casa e mira os alfarrábios
como se algum deles contivesse matéria plena de sentido.

E não há. Ao menos não ainda.
Talvez nunca haverá, é impossível prever.

Teu caminho é tu quem faz,
mas sempre te faltarão lajes
e terras aplainadas que te sirvam.
Bem sabes disso, e procuras;
procuras sempre aquela que dará
lajes, plainas, olhares
para, quem sabe um dia,
seguirdes palmilhando a estrada.
Deverias te esquecer por um momento
que dois é mais que um.

Madrugada seca

Meu peito queima.

São bombas que não ouso rasgar,

embora queira rasgá-las.

Minha falta de crença tão sentida

e meu excesso de vontades

combinando-se pouco a pouco, em vias da reação fatal.

Meu ser humano, ser mineral, alcalino.

Meu pensamento, nada divinatório, me diz

Que em solo seco não surgem frutos do futuro.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Post pra testar o app do Blogger pro Android.

Pêndulo ao vento

Meus versos têm saído de trás pra frente nestes dias.

A vista enevoada ajuda - fazer poemas também é modelar nuvens - mas não ultimamente.

Começo a escrever sobre o garoto passando na calçada, me vejo descrevendo Shiva Nataraja.

Penso em feltro, vejo uma menina.

Embora não pareça, tudo entrelaçado por fios finos e longos ao largo numa estrada, prontos pra serem puxados e derramarem tudo sobre esse papel parado à minha frente.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O entre.

Entre o outro e o eu, um abismo.
Uma sinfonia de notas não tocadas
marcada numa pauta de possibilidades fugidias.
Um abismo, três passos, dez pontes,
cinco paços, dois poentes - que importa?

A distância é infinita.

Minha mão a alcançaria, se a levantasse,
mas não ouso.
Tudo a seu tempo, mesmo as pontes.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Astronomia e Poesia

Não encontrei este poema de Carlos Drummond de Andrade por aí, então aqui fica o registro de um dos grandes divulgadores da ciência, Rogério Mourão, e a lembrança da sensação de alumbramento que nosso Universo pode causar às mentes mais curiosas.

O poema está no livro Corpo.



O CÉU

Na quietude da sala, em um dia qualquer
eu conversava com Ronaldo Rogério de Freitas Mourão,
seguidor dos árabes.
O céu veio à conversa.
O espaço dilatou-se
e uma luz diferente,
vermelha, branca,
alaranjada,
pousou em nossas peles e palavras.
Senti que estava perto Betelgeuse,
e Antares e Aldebarã
ocupavam espaço incomensurável na sala restrita.
Tinha à minha frente as três Zuban
- El-Gaubi, El-Schmali, El-Ekiribi.
Nada me atraía mais do que Zamiah,
que fulgiu e sumiu deixando em seu lugar
Merope, Celaene.
Completamente banhado por Sírius e cercado pelas sete Plêiades,
já me desfizera de tudo que é superfície e cuidado e limitações
para viver entre objetos celestes.
- Procyon - exclamei, e Ronaldo apontou
para o clarão de Alumadin.
Vi Margarita, Fomalhaut, no desdobramento abissal
o desfile de corpos ambíguos, intermitentes, enigmáticos.
O céu, o infindo firmamento,
girava em função do verbo solto,
por acaso, na conversa de ignorante e astrônomo.

Passeio

Passos levam a lugares inconclusos.
Acredito que nunca devem ser fechados em si;
a surpresa pode estar sob um seixo,
atrás de uma moita ou mesmo
dentro de um caderno roto com caligrafia antiga.
Por isso, nego-me a aferrolhar qualquer cancela.
Permaneço do lado de fora, andando pelo mato aberto
E pedindo licença à árvore em que me encosto,
para juntos olharmos as estrelas.

A busca, ela sim vale mais que o encontro.
É pela busca que corremos, saltamos
e atravessamos o infinito que reside entre
a poltrona e a porta.

O infinito espaço dentro de uma escolha.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Letra sem música

Ainda vou mexer muito nisso, coloquei aqui só pra não esquecer mesmo. É um rascunho do rascunho.


_____



Hoje é um dia de vento frio
Oh vento nos carregue para
uma estrela que gire
lentamente e amarelo.

Esse ar gelado que enche meu peito
sopre minhas esperanças.
Sopre-as até aquela janela
e faça da minha voz um sussurro.

A fumaça do chá fazendo círculos
e o aroma em cada gota de vapor.

Oh vento nos leve até uma estrela.

Distração, memória

Queria um poema sobre amor
Mas pensava em xícaras.

Em como gostava de seu café puro
com bolo de festa para adoçar.

No chá que - ele bem sabia -
ela tomava nas tardes de outono.

Nos cappuccinos divididos com os amigos.

Na sensação dos dedos gelados
tocando o copo quente de papel.

No banco da padaria lá de sua cidade.

Nos cafés com seu pai, na sua faculdade,
em casa, sozinho com a janela,
as árvores e o vento.

Sem perceber, escreveu um poema de amor pelas coisas.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Caligrama I

Primeira brincadeira com os caligramas! Bem gostoso de fazer; imagino como o Apollinaire se divertia com isso. =3