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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Meu Jesus


Cristo com coroa de espinhos, Lucas Cranach o velho; 
Reconstituição do rosto de Jesus (programa Son of God, da BBC);
Jesus Cristo Pantocrátor, basílica de Santa Sofia.

Pois bem, sangue foi derramado e pessoas foram perseguidas nas muitas batalhas ideológicas a respeito da figura de Jesus Cristo. Homem e deus de existência indissolúvel, revolucionário nacionalista, carne separada do lógos, entre outras representações, Jesus foi pintado com as tintas mais úteis a cada facção, império, seita ou indivíduo, geralmente com um papel bem definido.

O nazareno já outorgou autoridade a diversos governos monárquicos - seja o Cristo Pantocrátor dos romanos orientais, seja o Jesus pregado à cruz da Igreja Católica do Ocidente - e ainda hoje tem seu nome usado por religiões diversas e de modo aparentemente desinteressado, mas também em cultos neopentecostais voltados para pessoas que vivem numa austeridade semelhante à dos primeiros cristãos, mas que acabam sendo enganados por "sacerdotes" que mais se assemelham a retores mal-intencionados que a bons pastores do povo.

Este homem multifacetado é o que hoje chamamos de figura de domínio público. Todos podem usar sua imagem para criar obras de ficção perigosas ou inócuas, como um objeto cultural que gera lucros, mentiras e também desvela algumas verdades.

Pois bem, eu também tenho o meu Jesus, que não é tão Cristo. Sua tez é cor de oliva, os cabelos crestados de sol. Suas mãos têm calos, assim como seus pés, acostumados ao calor das pedras orientais e ao pouco uso de sandálias de couro. A conduta do meu Jesus não é irrepreensível, porque apesar de criança ter discutido com os sábios, ele era ainda uma criança que fazia suas bagunças. Foi um jovem austero, mas alegre, sorridente; homem morto pelos socialmente fortes, porém tíbios em outras áreas.

Ele não nasceu em Belém, pois é nazareno; respeita o próximo, mas combate o que vai contra seus valores, tendo por arma a palavra justa e a ação correta; leva aonde vai sua austeridade sorridente, e tem comportamento exemplar de acordo com a humanidade que possui.

O que posso afirmar é para mim que esse homem não é um deus, mas um dos melhores homens. É idealizado e é meu, minha visão, um exemplo de conduta que moldei com a argila que me foi dada ao longo de minha criação. A dimensão desse Jesus é particular e ética. É um dos meus exemplos de conduta e de vivência, e não se relaciona diretamente à religião. Não consigo acreditar em ícones apenas por serem ícones; nunca conseguiria aceitar valores totalmente alheios à minha natureza, portanto, meu Jesus tem muito do mundo e muito de mim, mas moldado de modo que eu possa me tornar uma pessoa melhor, mais humana, quando olhar para esta imagem que gravei dentro de mim.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Atravessei algumas madrugadas, mas não de bicicleta. De skate no pé, tentando fazer aquela magia plástica que sempre volta à cabeça.

Sim, eu sou um idealista. E romântico. E, ainda mais, um observador. Não dos bons, mas sou. E às vezes me esforço pra manter os pés do chão e não sair carregado pelo vento, olhando pra baixo.

Uma das canções da minha adolescência, When I get old, dos Descendents. Não tem essa de velho, de novo, de nada. A vida sempre se abre e fecha em seus momentos e eu me sinto sempre diferente, mas carregando a mesma essência de quando eu mandava um frontside noseslide e saía todo feliz.

E eu adoro dormir no chão.




what will it be like when I get old
will I still hop on my bike, and ride around town
will I still want to be someone, and not just sit around
I don't want to be like other adults
cause they've already died
cool and condescending, fossilized
will I be rich will I be poor, will I still sleep on the floor
what will it be like when I get
what will I be like when I get
what will it be like when I get old
will I still kiss my girlfriend and try to grab her ass
will I still hate the cops and have no class
will all my grown up friends say they've seen it all before
they say hey act your age and I'm immature
will I do myself proud or only what's allowed
what will it be like when I get
what will I be like when I get
what will it be like when I get old
will I sit around and talk about the old days
sit around and watch t.v. I never want to go that way
never burn out not fade away
as I travel through my time will I like what I find
what will it be like when I get
what will I be like when I get
what will it be like when I get old

sábado, 7 de março de 2009

Just a man


Sky is clear tonight
Sky is clear tomorrow
A star is out
I reach for one to sparkle in my hand
A star is out
I will not touch you, I am just a man
Sky is clear tonight
Sky is clear tomorrow
And every night I shut my eyes
So I don't have to see the light
Shining so bright
I'll dream about a cloudy sky,
A cloudy sky
I'll dream about a cloudy sky, a cloudy
Man was born to love-
Though often he has sought
Like Icarus, to fly too high-
And far too lonely than he ought
To kiss the sun of east and west
And hold the world at his behest-
To hold the terrible power
To whom only gods are blessed-
But me, I am just a man
And every night I shut my eyes
So I don't have to see the light
Shining so bright
I'll dream about a cloudy sky, a cloudy sky
And every night I shut my eyes
But now I've got them open wide
You've fallen into my hands
And now you're burning me
You're burning me


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Face a face

Puxa, eu havia esquecido de uma banda que marcou minha adolescência, Face to Face. Conheci-a no finado programa Skabadabadoo, na Brasil 2000 (que agora tem o nome sem-graça FM 107.3). Clássicos do hardcore do anos '90 como Blind e Ordinary mostram como é possível criar músicas com sentimento e 'punch'. Lembro quando eu atormentava meus amigos em meu primeiro emprego cantando Ordinary o dia inteiro. Bom, eu cantava tudo errado, mas cantava empolgado.




what if I'm right and you are wrong?
what if you knew it all along?
what if I figured out that I did not belong?
what if it always bothered me?
what if I never did believe?
would it be wrong if I decided I should leave?
if I pretended I was blind
and struck it from my mind
would it still be there?
what if I'd do anything to make it seem all right
it's all right
what if it's all inside my head?
what if those words were never said?
would it be easier if I could just forget?
what if I didn't run away?
could it be any other way?
would it be wrong if I decided I should stay?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Epigrama de Seikilos

Antes de tudo, peço desculpas pela transcrição do grego. O programa que utilizei não me permite aplicar todos os acentos necessários, então o negócio acabou ficando meio cambaio.

O epigrama de Seikilos é considerado o primeiro registro de instruções musicais do mundo ocidental, algo como uma mini-partitura. A parte dos versos é um epigrama e, com o estilo sintético característico a esse gênero, trata da brevidade da vida e da necessidade de fazermos o possível para vivermos de forma alegre, tendo em vista que não duraremos muito tempo neste mundão.

Seikilos, aparentemente, é o nome do artista que criou o monumento onde o epigrama e a "partitura" estavam entalhados. Era costume grego que alguns artistas entalhassem frases em suas obras, como "Aristarco me criou"; é como se às obras tivesse sido dada voz, para que quem as visse soubesse qual a origem delas.


ΣΕΙΚΙΛΟΥ

όσον ζής φαίνου
μήδεν όλος συ λιπού
πρός ολίγον εστί τόν ζήν
τό τέλος ό χρόνος απαίτει

FEITO POR SEIKILOS

Enquanto vives, brilha!
Acima de tudo não sofras
curta é a vida
o termo o tempo cobra.


terça-feira, 19 de agosto de 2008

Minhas aventuras de Tibicuera

Uma das melhores coisas que podem acontecer a quem é apaixonado por livros é justamente reencontrar uma paixão da infância. Qual não foi minha alegria ao ver sujinho e baratinho num sebo bagunçado perto de casa um desses amores tão importantes e tão profundos?


Era um livrinho miúdo de capa laranja que narra a história fantástica de um pequeno índio ao longo de quatrocentos anos (sim, quatrocentos). O livro é As aventuras de Tibicuera e o autor, Erico Verissimo (1905-1975).



O adulto e civilizado doutor Tibicuera é morador de uma Copacabana que vivencia os fortes espasmos modernistas dos anos '30, e é nesse ambiente que nos conta de forma romântica sua história, de seu nascimento em uma aldeia tupinambá até sua vida de cidadão num país republicano que descende dos navegadores europeus que há tanto tempo invadiram esta terra. O livro, com todo o poder da escrita de Erico voltado às crianças e aos jovens da década de quarenta em diante, anda esquecido. Eu mesmo não me lembrava dele e se não fosse o encontro fortuito no sebo continuaria sem lembrar, tendo apenas uma recordação difusa desse que, curiosamente, ia e vinha pela minha cabeça de tempos em tempos. Curioso, não?


O escritor de Saga não se furtou de inserir em sua narrativa infantojuvenil guerra, amor, morte, nostalgia e crenças diversas, entre outros temas. As aventuras de Tibicuera são as aventuras de nossa terra e compõem um romance de formação de nosso país que se estende ao longo de quatro séculos, formando um pequeno “livro de tudo”. Tomar Tibicuera como metonímia de Brasil não é exagero e essa é uma das chaves dessa grande obra.


A escrita é envolvente e trata a criança como alguém que deve se divertir e se esforçar na busca pelo entendimento do que está lendo. Na página que faz as vezes de prefácio, Erico Verissimo diz:

Eu podia encher este livro com notas explicativas de certas palavras. Prefiro, entretanto, que vocês recorram ao dicionário, habituando-se a consultá-lo em casos de dúvida ou desconhecimento. É um bom exercício não só de paciência como também de honestidade intelectual. E, no fim de contas, sempre gravamos melhor na memória o significado das palavras que nos levaram a folhear dicionários.

Isso é tratar a criança e o jovem como eles são, seres de potencialidades. O salto entre essa abordagem e a atual, que toma jovens e crianças como imbecis, é pungente – abram qualquer livro didático composto nos últimos dez anos e leiam qualquer poema que por ventura exista nele: possivelmente encontrarão um emaranhado qualquer de frases justapostas que subestimam os mais jovens. E ganha-se dinheiro, bom dinheiro, escrevendo bobagens que serão compradas por editoras ditas infantis e publicadas juntas a ilustrações de gosto duvidoso.



Falando em ilustrações, a de capa é de Clara Pechansky (1936-) e as de miolo de Ernest Zeuner (1895-1967), feitas numa época de excelência mágica para a arte de compor livros.